Do puritanismo no álcool-zero
Procuradora de Justiça mostra que não entende de bebida ao defender a lei do álcool-zero.
Segundo ela, o ato de beber é marcado por tamanha dependência, que todo o rito social em torno é mera desculpa. Em suas palavras:
(…) mas a bebida alcoólica continua sendo cultuada quase como divindade. Beber é verdadeira obrigação nas atividades de lazer. As pessoas se reúnem para ingerir álcool, a amizade é secundária, tudo o mais é secundário.
É preciso nunca ter saído para beber com a galera para pensar dessa forma. É preciso nunca ter-se divertido com amigos numa mesa de bar para achar que eles estão ali apenas para encher a cara.
Os efeitos do álcool, tão bem conhecidos de todos, ganham sentido entre amigos, porque o álcool, que acompanha a humanidade desde muito, tem notória relação com eventos sociais e, sobretudo, com o espírito da comemoração.
Beber com amigos é partilhar desse momento de alegria um tanto frívola, mas passageira e tão útil à dissipação dos humores do cotidiano.
Impor limites ao consumo de álcool, com leis, com proibições religiosas e repreensões morais, é suspender o ânimo leve que normalmente envolve o ato de beber. É dar-lhe uma face pesada, séria, recriminada, e por fim obcecante.
É quando a bebida deixa de ser o entretenimento da confraternização, para se tornar o oráculo dum prazer proibido, o veneno duma alma que já não sabe gracejar. Pois é melhor defender a lei com os velhos argumentos sobre o trânsito, do que discorrer equivocadamente sobre o papel do álcool.