Em defesa do anonimato
O anonimato é recurso precioso da internet, que dá trabalho aos que se contrangem para defendê-lo e aos que não o compreendem, tentando restringi-lo.
Pois o dito anonimato, que é conseqüencia da incapacidade habitual de ligar máquinas e personagens virtuais aos seus utilizadores de carne e osso, é o instrumento tecnológico da privacidade. Já que a internet é esse universo tão vasto, é essa incapacidade que impede que se transforme na mais temível arma de controle, de vigilância e de cerceamento de liberdades que jamais existiu.
Uma ligeira ilustração:
Há duas formas de adquirir jornais e revistas. Eu posso ir até o jornaleiro todas as vezes que uma nova edição estiver disponível, ou eu posso assinar a publicação e recebê-la em casa.
Por meio da assinatura, eu ganho comodidade, mas perco algo da minha privacidade. Isto é, eu deixo a editora tomar conhecimento de meus hábitos de leitura. Pode parecer besteira, mas quem já cancelou assinatura sabe o tormento que pode se seguir na forma de ligações de telemarketing e correspondências insistentes para que o ex-assinante volte atrás.
Em comparação, a visita ao jornaleiro é bem menos invasiva. Eu posso mudar de jornaleiro, caso julgue conveniente manter minha discrição. Mas não tenho a mesma opção caso preferisse receber a revista em casa, diretamente da editora.
Eu prefiro visitar e ler sítios da internet, sem que o dono colete informações sobre minha leitura. A propósito, se alguém publica algo, é para que pessoas vejam e leiam.
Imagine um sistema em que seja necessário identificar-se a cada visita. Quem coleta as estatísticas não só sabe seus leitores, mas, de acordo com cada página vista, sabe o que eles lêem. Nenhum jornal impresso consegue saber precisamente o que seus leitores lêem, se determinado assinante passa mais tempo no caderno de economia ou no de esportes.
O debate sobre anonimato às vezes encrenca porque há quem implique com o alcance do conceito. Dizem que não há anonimato absoluto. You can click but you cannot hide. Sim, mas anonimato é sobretudo um efeito prático da dificuldade de identificar.
É como andar num shopping movimentado. Você é anônimo no sentido de que é apenas mais um transente, e não há quem se interesse em observá-lo e segui-lo. Mas há exceções. Uma delas é o das pessoas célebres, que, como ninguém, sabem o valor perdido do anonimato. Elas o sabem porque não conseguem fazer coisas banais como ir a uma loja ou sentar numa lanchonete sem serem reparadas e importunadas.
Acabar com o anonimato na internet é permitir, por exemplo, que empresas nos tratem como seus “clientes célebres”, que não podem abrir uma página sem ter seus passos monitorados e convertidos em estratégias de marketing. E nem falo da perseguição política em estados autoritários.
A outra exceção é o da conduta suspeita. Shoppings têm seguranças, que ficam em observação dispersa, ou seja, olham aqui e acolá sem se fixar em nada, até que algo que lhes atraia a atenção. Aí sim alguém que caminhava despercebido passa a ser seguido, primeiramente de forma distanciada, e em seguida de forma mais ostensiva e atuante, caso a suspeita se confirme.
Na internet, é o similar à conduta criminosa, que deixa rastros em computadores e servidores, e cuja investigação a polícia fará a fim de obter com o juiz a ordem para revelar a identidade por trás do famoso endereço de I.P.
Daí que pretender coibir o anonimato é atentar contra a liberdade das pessoas e contra a natureza da própria internet.